GESTÃO DA PRODUÇÃO

“Manutenção Lean”: para transformar ativos em vantagem competitiva

Flávio Battaglia e Luigi Gambirasio Junior
“Manutenção Lean”: para transformar ativos em vantagem competitiva
Manter equipamentos e sistemas operando influencia diretamente a execução da estratégia e a entrega de valor para o cliente. Com uma abordagem estruturada, a gestão da manutenção pode se tornar um pilar de estabilidade, eficiência e alinhamento entre operação e negócio.

A gestão de ativos é um pilar crítico para negócios intensivos em capital, como aviação, mineração, construção, logística, agronegócio, entre outros. Em setores onde a disponibilidade dos equipamentos determina a eficácia operacional e a rentabilidade, a manutenção precisa evoluir além da visão tradicional. Incorporar os princípios do sistema lean de forma estratégica – o que chamamos de “manutenção lean” – é essencial para conectar a estabilidade dos ativos às demandas do negócio, elevando a gestão a um nível que gere valor real.

A filosofia lean, mais ampla que a aplicação original na produção, é uma mentalidade de eliminação de desperdícios e melhoria contínua que se adapta a qualquer organização. Na manutenção, isso significa ir além de evitar falhas ou cortar custos: é sobre posicionar os ativos como vantagem competitiva. No agronegócio, colheitadeiras paradas podem comprometer a safra; na aviação, uma aeronave indisponível gera perdas em cascata. Uma gestão eficaz assegura que os equipamentos estejam prontos para operar, alinhados aos objetivos estratégicos.

A estabilidade dos processos é a fundação dessa abordagem, inspirada no Sistema Toyota de Produção. Equipamentos confiáveis sustentam operações consistentes, evitando paradas inesperadas e prejuízos. Mas a “manutenção lean” vai além: transforma essa estabilidade em um diferencial que permite às empresas reagirem rapidamente às demandas do mercado. Organizações que aprimoram a gestão da manutenção ganham agilidade, reduzindo tempos de inatividade e ampliando a capacidade de entrega.

Tecnologias preventivas e preditivas, baseadas no contexto operacional onde os equipamentos estão instalados, são ferramentas-chave nesse modelo de gestão estratégica da manutenção. A manutenção preventiva baseia-se em cronogramas planejados, definidos a partir do uso ou do tempo de operação dos equipamentos, para minimizar interrupções inesperadas. Já a manutenção preditiva vai além, utilizando tecnologias como Internet das Coisas (IoT), análise de dados em tempo real e inteligência artificial para monitorar continuamente o estado dos ativos e antecipar problemas com alta precisão. Esses avanços não apenas evitam falhas, mas transformam a manutenção em uma aliada estratégica da performance empresarial, alinhando os ativos aos objetivos de negócio de forma proativa.

A manutenção preventiva, por exemplo, é uma prática consolidada que organiza intervenções antes que os equipamentos cheguem a um ponto crítico. Em uma operação agrícola, tratores podem ser revisados após um número específico de horas de trabalho, trocando peças desgastadas como filtros ou correias antes que causem paradas durante a colheita. Esse planejamento reduz o risco de downtime em momentos cruciais, como a safra, onde cada dia perdido pode significar prejuízos na casa dos milhões. É uma abordagem sistemática que traz previsibilidade e controle, fundamentais para setores onde a continuidade operacional é inegociável.

Por outro lado, a manutenção preditiva eleva o jogo ao incorporar tecnologia de ponta para prever falhas antes mesmo que os sinais sejam visíveis a olho nu. Em uma mineradora, sensores instalados em um britador monitoram vibrações, temperatura e pressão, enquanto algoritmos analisam esses dados para detectar padrões que indicam desgaste iminente. Se o sistema identifica uma anomalia, a equipe pode intervir cirurgicamente, substituindo um componente específico sem interromper toda a linha de produção. Esse nível de precisão evita paradas prolongadas e mantém a extração de minério no ritmo planejado, otimizando tanto a eficiência quanto a rentabilidade.

Na logística, a aplicação preditiva também brilha com exemplos práticos e impactantes. Imagine uma frota de caminhões equipada com dispositivos IoT que monitoram o desempenho de motores e freios em tempo real. Se os dados indicarem que um rolamento está prestes a falhar, a manutenção pode ser agendada para a concessionária mais próxima, com mão de obra e materiais preparados, executando a substituição no menor espaço de tempo possível, evitando uma quebra na estrada que atrasaria entregas e aumentaria custos com reboques. Esses ajustes proativos não só mantêm a frota ativa, mas também fortalecem a confiança dos clientes, que dependem de prazos cumpridos. Assim, a gestão da manutenção se conecta diretamente à reputação e ao sucesso do negócio.

A participação das pessoas é vital nesse modelo de gestão da manutenção. Capacitar operadores para realizar tarefas básicas, como inspeções diárias em escavadeiras numa obra, permite identificar desgastes – como rachaduras em peças, ruídos anormais ou vazamentos de óleo –, antes que se transformem em falhas graves. Esse modelo distribui responsabilidades, aliviando a equipe técnica e aproximando quem opera os equipamentos do cuidado com os ativos. Ao mesmo tempo, melhora a disponibilidade das máquinas e reforça a cultura de melhoria contínua, criando uma operação mais integrada onde todos têm um papel ativo na eficiência.

Essa abordagem se conecta diretamente ao Gerenciamento Diário (GD), uma prática lean que organiza e acompanha as atividades rotineiras para garantir consistência e resolução rápida de problemas. No contexto da manutenção, o GD pode incluir checklists padronizados que os operadores utilizam durante as inspeções, registrando anomalias em tempo real. Por exemplo, em uma planta industrial, um operador treinado pode notar um ruído incomum em uma bomba e reportá-lo imediatamente, permitindo uma intervenção antes que a produção pare. Esse fluxo contínuo de informações entre operadores e gestores fortalece a proatividade, reduzindo o tempo de resposta e elevando a confiabilidade dos ativos.

O impacto vai além da técnica: ao envolver as pessoas no cuidado com os equipamentos, o GD cria um senso de propriedade e engajamento. Em uma operação de logística, motoristas que verificam pneus e freios antes de cada viagem não só previnem avarias, mas também se sentem parte da solução, contribuindo para a pontualidade das entregas. Esse alinhamento entre as tarefas diárias e os objetivos maiores do negócio – como disponibilidade e eficiência – transforma a cultura organizacional. O resultado é uma equipe mais consciente e uma operação mais robusta, onde a manutenção se torna um esforço coletivo guiado por disciplina e colaboração.

Eliminar desperdícios é um benefício claro dessa maneira de fazer gestão. Tempo de inatividade, retrabalho e produção defeituosa corroem a rentabilidade, mas podem ser reduzidos com ativos bem mantidos. Estudos apontam aumentos de até 20% na produtividade e cortes equivalentes nos custos operacionais. Para logística, isso significa entregas no prazo; para o agronegócio, colheitas concluídas sem atrasos. Esses ganhos mostram o impacto direto da manutenção nos resultados financeiros.

A segurança e o engajamento das equipes também melhoram. Equipamentos confiáveis diminuem riscos de acidentes, o que é essencial em setores como mineração e aviação, onde falhas podem ser graves. Colaboradores em ambientes seguros, com máquinas operando plenamente, sentem-se mais motivados e valorizados. Esse ciclo positivo fortalece a cultura organizacional, alinhando pessoas e processos aos objetivos do negócio.

Liderança engajada é indispensável para essa transformação. Gestores de manutenção, diretores de operações e donos de empresas devem ver a manutenção como investimento, não como custo. Isso exige recursos, capacitação e uma mentalidade de excelência. Em mercados competitivos, a disponibilidade dos ativos pode separar líderes de empresas estagnadas. A alta gestão tem o papel de liderar essa mudança.

A força da “manutenção lean” está em conectar os ativos aos indicadores-chave do negócio. Mais que estabilidade operacional, ela gera valor sustentável: para uma companhia aérea, mais voos realizados; para uma mineradora, mais toneladas extraídas. A gestão dos ativos passa a influenciar receita, satisfação do cliente e retorno sobre investimento, consolidando-se como pilar do sucesso organizacional.

Negligenciar essa abordagem pode ser arriscado. Paradas imprevistas e longos tempos de reparo consomem margens e abalam a confiança de clientes e parceiros. Já empresas que priorizam essa gestão se destacam, usando seus ativos para impulsionar o crescimento. Manter equipamentos operando não é só sobre consertos, mas sobre sustentar a prosperidade do negócio.

Para gestores e líderes, o momento de agir é agora, e a gestão estratégica é o elemento essencial para impulsionar essa transformação. Avaliar o estado atual dos ativos, investir em tecnologias preditivas e engajar equipes não são apenas passos iniciais, mas ações que dependem de uma liderança comprometida em alinhar a manutenção aos objetivos do negócio. O retorno – maior eficiência, eficácia e rentabilidade – comprova que o esforço vale a pena, desde que sustentado por uma gestão proativa e bem estruturada. Em um cenário onde o tempo é um recurso valioso, equipamentos parados representam um custo inadmissível, tornando a gestão eficaz não apenas desejável, mas indispensável para a sobrevivência e o sucesso da operação.

A gestão estratégica da manutenção, guiada por princípios lean, desbloqueia o potencial de negócios dependentes de seus ativos. Integrando tecnologia, pessoas, cultura e estabilidade, ela garante equipamentos disponíveis quando mais importam. Para líderes dispostos a refletir e agir, o caminho é claro: transformar a manutenção em um ativo estratégico é essencial para o sucesso. O futuro da operação – e da lucratividade – pode depender disso.

Publicado em 02/04/2025

Autores

Flávio Battaglia
Presidente do Lean Institute Brasil
Luigi Gambirasio Junior
Senior Lean Coach do Lean institute Brasil

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