Na trajetória das 100 edições da Revista MundoLogística, inúmeras inovações tecnológicas e organizacionais foram acompanhadas e discutidas em suas páginas. O modelo Lean de gestão aplicado ao Supply Chain e à logística se insere nesse esforço de atualização que hoje brindamos na edição centenária. Este artigo discute a peculiaridade da inovação organizacional que o Modelo Lean proporciona quando aplicado de forma estruturada, provocando um grande impacto positivo em várias dimensões da empresa, da cadeia e do negócio. O Modelo Lean impacta desde a formação de pessoas até a introdução de outras inovações de natureza tecnológica, como é o caso da IA e outras transformações digitais. Esse efeito exponencial e amplo do Modelo Lean é conhecido como o efeito GPT General Purpose Technologies e é discutido neste artigo com a recomendação de incorporação urgente do Lean nas formulações estratégicas das empresas.
Escrever no número 100 desta revista requer produzir uma reflexão especial nos nossos leitores. Ao longo dos anos, a MundoLogística vem colecionando artigos que retrataram a mudança e inovação acelerada das organizações. Ela ampliou o mundo visível ao profissional da área nos últimos anos, trazendo questões diversas que afetam a gestão de suprimentos e logística em ambiente com diversidade e incertezas — ao mesmo tempo que se busca a eficiência e eficácia das operações.
Esta coluna é um dos casos dessa evidente ampliação, trazendo ao leitor como o Modelo Lean pode ajudar nessa escalada com grande e amplo impacto em diversos aspectos da operação e do negócio.
No início dos anos 2000, Richard Lipsey e colaboradores realizaram estudos empíricos que permitiram identificar que algumas inovações que produziam novas tecnologias de processo, produto ou organizacional tinham um impacto positivo para o desempenho econômico e da sociedade expressivamente, muito maior do que a maioria provocava. Eles chamaram essas inovações de “General Purpose Technologies” (GPT) e identificaram o Modelo Lean como uma delas e, ainda mais, a última tecnologia organizacional disponível com esse benefício amplo.
A mudança tecnológica abrange toda a gama, desde mudanças contínuas, pequenas e incrementais, passando por invenções radicais descontínuas — até o momento em que emergem as inovações de grande impacto — da classe GPT que evoluem para permear grande parte da economia. Essas inovações da classe GPT compartilham algumas características comuns importantes: elas começam em pontos localizados, como foi o caso do Lean na produção automobilística — “Lean Production” — com um número limitado de praticantes e evoluem para aplicações mais complexas, com aumentos na gama de seu uso em toda a economia e na gama de resultados econômicos que eles ajudam a produzir.
À medida que se difundem pela economia, a sua eficiência melhora constantemente. Sendo tecnologias maduras, são amplamente utilizadas para diversos fins e têm muitas complementaridades no sentido de cooperar com muitas outras tecnologias, como é o caso do Lean com a transformação digital e a IA.
Algumas das novas e importantes inovações da classe da GPT, como é o caso do modelo Lean de gestão, provocam grandes mudanças estruturais em aspectos como a organização do trabalho, a gestão das empresas, os requisitos de competências, a localização e concentração das empresas e as infraestruturas de apoio.
O modelo Lean de gestão é uma classe especial de inovação GPT e se trata de uma inovação classe GPT de grande impacto. Lipsey descreve, por exemplo, que a tecnologia do laser é um exemplo de GPT de baixo impacto. Eles são amplamente utilizados em toda a economia para múltiplos propósitos: para medir distâncias interplanetárias em astronomia; ler códigos de barras em caixas; para facilitar vários tipos de cirurgia em hospitais. Eles são fundamentais nas comunicações; lapidam diamantes; são usados para fresar materiais em novas máquinas-ferramentas de última geração; soldam plásticos; e, atualmente — acrescentamos à lista de Lipsey —, estão sendo utilizados na efetivação de diversos meios da Indústria 4.0.
Os lasers, no entanto, não se qualificam como uma inovação classe GPT transformadora porque se enquadraram bem na estrutura social, econômica e institucional existente, não causando grandes transformações. O modelo Lean, em contraste, tem grande impacto transformador.
Modelo lean como uma inovação transformadora de grande amplitude e impacto (Classe GPT)
O modelo Lean é uma das poucas GPT transformadoras que evoluíram a partir de outra inovação: a linha de montagem e de produção especializada, que foi desafiada e amplamente reformada. O Lean manteve o conceito de produção de baixo custo em uma linha de montagem, mas mudou radicalmente o grau de organização do trabalho e do capital, com consequências de aumento dos resultados.
A Toyota levou décadas para desenvolver a produção enxuta antes e logo depois da Segunda Guerra Mundial, elevando seu patamar de competitividade. O desenvolvimento de suas inovações centradas em permitir a variedade crescente de modelos em pequena escala deixou aqueles do modelo anterior da produção em massa sem compreender as bases do sucesso. No processo de inovação transformador, essas inovações foram compreendidas e produziram “spillovers” para todo tipo de empresa, constituindo o que conhecemos como modelo Lean de gestão com grande e ampla aplicação, incluindo o Supply Chain e a logística em qualquer setor econômico.
O modelo Lean permite produzir e transportar pequenas frações de muitas variedades a baixo custo, sem a necessidade de buscar consolidação de grandes lotes. Duas fontes dessa economia de custos são importantes e inovadoras em seu impacto em toda a cadeia de suprimentos. Primeiro, pequenos lotes eliminaram os custos de manutenção de enormes estoques, pois os custos de armazenamento e coordenação são minimizados ao receber os itens apenas quando são necessários. Em segundo lugar, como os itens precisam ser operacionalizados quase que em fluxo contínuo em sua movimentação na cadeia, os defeitos, avarias ou erros de serviço são identificados em suas origens e causas prematuramente, aperfeiçoando e ampliando o processo de inovação com redução de custos em todos e amplos tipos de postos de operação.
Essa última inovação reduziu enormemente os custos causados por defeitos e levou a um produto e serviço final mais confiável. Em contraste, as técnicas de produção em massa e muitas empresas ainda nelas inspiradas dedicam recursos consideráveis à correção de erros, e muitos defeitos passam despercebidos nas etapas finais das operações da cadeia, sendo repassados aos consumidores.
Por outro lado, fazer o modelo Lean funcionar exige inovações no gerenciamento dos recursos humanos. O modelo Lean deixa de atribuir uma tarefa repetitiva a cada trabalhador e, em vez disso, utiliza os recursos humanos como partes de uma equipe com líderes formadores, proporcionando formação integral durante todo o processo de trabalho. Cada equipe recebe um conjunto de tarefas em fluxo, com metas de desempenho relacionadas, bem como algum grau de poder de decisão para determinar a melhor forma de atingir essas metas. Dentre esses poderes, está a capacidade de gerenciar o fluxo de trabalho para identificar problemas e suas causas.
Após um período inicial de aprendizagem, essa prática leva a um declínio dramático no número de defeitos e problemas operacionais. O resultado é uma reputação de confiabilidade que permite a formação de novas iniciativas, mais inovações e o alcance de impactos ainda maiores.
Portanto, o modelo Lean vai se ampliando naturalmente no interior da organização e acaba atingindo resultados e mudanças de processo também na concepção de novos produtos e serviços, bem como na forma de conceber estratégias de criação de valor para clientes e consumidores. Um círculo virtuoso se impõe, fortalecendo a transformação em inovação de classe GPT de grande impacto e amplitude em todos os níveis organizacionais.
Nessa trajetória, o modelo Lean alcança a integração com fornecedores e distribuidores em uma cadeia de suprimentos voltada para a entrega de valor em sistemas de programação puxada ou híbridos, que compartilham informações por meio de uma rede de cooperação. Sistemas digitais integrados, rotas compartilhadas, inteligência em compras e avanços de um modelo inovador orientam e integram outras inovações.
Por outro lado, essa transformação também apresenta uma forma peculiar de implantação, que dirige a difusão e o atingimento de uma inovação classe GPT com um modelo situacional. Esse modelo, conhecido por LTF (Lean Transformation Framework), é a chave para que essa gradual transformação e ganho exponencial de resultados seja alcançado com os benefícios que Lipsey visualizou e estudou empiricamente na economia mundial.
LTF: Lean Transformation Framework
Indo muito além de ferramentas que compõem um arcabouço sociotécnico para conduzir melhorias e eficiência a um nível tático-operacional, o modelo Lean se configura como um sistema de pensamento. Capaz de articular a estratégia das organizações e seus ecossistemas, ele tem como fim último proporcionar maior entrega de valor aos clientes. Para tanto, considera distintas dimensões essenciais para conduzir a transformação com perenidade e sustentabilidade, proporcionando a inovação classe GPT.
Tais dimensões (cinco), a partir da experiência empírica dos pesquisadores e praticantes Lean ao redor do globo, conectados particularmente pela Lean Global Network (LGN)1, foram evidenciadas e sistematizadas no LTF (Lean Transformation Framework). Seguindo a metáfora da construção de uma casa (Figura 1), o LTF é representado como um modelo vívido que expressa e constitui os fundamentos para uma transformação audaz, de grande amplitude e impacto.
Figura 1 — O Lean Transformation Framework (LTF) e suas cinco dimensões
O LTF consolida de maneira única uma abordagem situacional exigida para uma transformação bem-sucedida, dirigindo a inovação classe GPT em todo o ecossistema de negócio. A abordagem situacional reside no fato de que as cinco dimensões direcionam questões aplicadas tanto ao nível macro das empresas e cadeias de suprimentos quanto à responsabilidade individual.
Questões do Lean Transformation Framework:
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Qual é o propósito da mudança? Que objetivo estratégico e valor está se fornecendo? Que problema estamos tentando resolver?
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Como estamos melhorando o trabalho real?
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Como estamos desenvolvendo capacidades humanas?
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Que comportamentos da liderança e qual sistema de gestão são necessários para apoiar esta mudança?
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Que pensamento, mentalidade ou pressupostos básicos compõem a cultura existente e como se relacionam com a transformação?
Na prática, à medida que se aprofunda progressivamente cada dimensão, as questões vão elucidando um ponto de vista claro sobre a sustentação e o impulso da jornada de transformação. Se essas questões não forem abordadas de maneira conjunta e com uma noção clara de suas inter-relações, a transformação e inovação de impacto terá dificuldade em sustentar seu dinamismo virtuoso para a criação de valor.
Particularmente, a transformação e inovação contemporânea da logística e cadeia de suprimentos integra múltiplos aspectos, tais como tecnologia, visibilidade, integração, orquestração, analytics, colaboração, diversidade e sustentabilidade, entre muitos outros. Nesse cenário diverso e plural, o LTF desponta como a racionalização de um modelo estruturado para organizar a jornada de transformação e inovação, permitindo aos decisores compreender melhor o cenário particular de cada organização ou ecossistema, classificar contramedidas e tomar decisões mais acertadas.
Em outras palavras, o LTF é o fundamento metodológico da abordagem Lean para Supply Chain. É o LTF que permite acomodar e abordar as necessidades correntes dos ecossistemas, considerando ferramentas técnicas e tecnológicas, capacidades humanas e de liderança, pressupostos cognitivos e sistemas de gestão, em busca de um propósito comum que impulsione e sustente a inovação transformadora de grande amplitude e impacto, respeitando cada especificidade de forma situacional.
Efetivamente, ser situacional significa que cada transformação será específica e diferente, com propósitos de valor próprios. Estar fundamentado em um conjunto comum de princípios para aplicação situacional é oferecer a ocasião para o desenvolvimento de inovações verdadeiramente profundas.
Desejamos que esse ponto de vista Lean clarifique e apoie as iniciativas de inovação que você, leitor, esteja conduzindo ou venha a conduzir em suas funções no Supply Chain. Que o próximo centenário de edições da Revista MundoLogística esteja repleto de casos sólidos de inovação classe GPT efetuados pelo modelo Lean.
REFERÊNCIAS
• LIPSEY, Richard G.; CARLAW, Kenneth I.; BEKAR, Clifford T. Economic Transformations — General Purpose Technologies and Long-Term Economic Growth. Oxford: University Press, 2005.
• TORRES Jr., Alvair S. As revelações do pensamento lean sobre os problemas da logística. MundoLogística, 2022.
• OLIVEIRA, Daniel Felipe; BATTAGLIA, Flávio. Futuro da logística exige aprofundar o lean em pelo menos três grandes “bases”. Lean Institute Brasil em LeanM@il, 2022.
¹LGN é uma comunidade de líderes e profissionais com o objetivo de melhorar a sociedade por meio do avanço da prática Lean em todo o mundo. Fundada por Jim Womack e Dan Jones em 2007, congrega instituições de 30 países, sendo o Brasil representado exclusivamente pelo Lean Institute Brasil (LIB).