ESTRATÉGIA E GESTÃO

Pioneiros da adversidade e visões que sobrevivem

Flávio Battaglia
Pioneiros da adversidade e visões que sobrevivem
As coincidências nas datas de falecimento — Rivella dez anos após Michele Ferrero e dois anos após Toyoda — vão além de uma mera curiosidade do calendário. Elas entrelaçam sutilmente histórias de excelência forjadas na necessidade e impulsionadas pela visão

No último 14 de fevereiro de 2025, Francesco Rivella, o químico italiano que desempenhou um papel crucial no sucesso global da Nutella, faleceu aos 97 anos em Alba, Piemonte, encerrando uma jornada de mais de quatro décadas na Ferrero. Trabalhando ao lado de Michele Ferrero na Itália do pós-Segunda Guerra, Rivella ajudou a transformar a escassez de cacau em uma oportunidade única, utilizando as avelãs abundantes da região para aperfeiçoar um creme que se tornaria sinônimo de inovação e prazer.

A data de sua morte carrega uma coincidência marcante: ocorreu exatamente dez anos após o falecimento de Michele Ferrero, em 14 de fevereiro de 2015. Fundador da gigante Ferrero e criador de ícones como a Nutella e os Kinder, Michele foi mais do que um líder visionário; foi um artesão de sabores que marcou gerações. Rivella, ao seu lado, teve papel essencial nessa trajetória, e a sincronia entre suas partidas parece reforçar o vínculo profundo que os unia na construção de um legado duradouro.

Curiosamente, essa não é a única coincidência associada ao dia 14 de fevereiro. Exatamente dois anos antes, em 2023, Shoichiro Toyoda, uma das figuras centrais na consolidação da Toyota como referência global em inovação e excelência produtiva, também faleceu — e, assim como Rivella, aos 97 anos. Embora pertencentes a universos distintos, ambos ajudaram a redefinir padrões em suas indústrias, deixando legados que ultrapassam fronteiras. Essa conexão improvável entre um mestre da indústria automobilística japonesa e um cientista dos sabores italianos permite uma conexão simbólica que une indivíduos capazes de transformar adversidades em grandes oportunidades e marcar a história com suas visões e persistências.

Francesco Rivella ingressou na Ferrero em 1952, aos 25 anos, recém-formado em Química pela Universidade de Turim. Durante mais de 40 anos, até sua aposentadoria em 1993, ele foi um parceiro essencial de Michele Ferrero, contribuindo para o refinamento da Nutella até o lançamento da receita definitiva em 1964. Seu trabalho não se limitou à Nutella: Rivella também ajudou a desenvolver produtos que se tornariam pilares da Ferrero, como Kinder Ovo, Tic Tac e Ferrero Rocher, cada um refletindo sua habilidade de transformar ingredientes simples em marcas globais.

Enquanto isso, no Japão, Shoichiro Toyoda entrava na Toyota no mesmo ano de 1952, aos 27 anos, começando como diretor de inspeção. Ele ascendeu à presidência em 1982, enfrentando as tensões comerciais entre Japão e EUA com decisões ousadas, como a joint venture NUMMI com a General Motors em 1984 e a abertura da fábrica de Kentucky em 1988. Sob sua liderança, a Toyota não apenas sobreviveu às pressões globais, mas se consolidou como a maior montadora do mundo, um marco que se concretizou anos após sua saída da presidência em 1992.

A genialidade de Rivella e Toyoda reside em sua capacidade de enxergar além das limitações. Na Ferrero, Rivella transformou a escassez de cacau em uma vantagem competitiva, ajudando a criar um produto que hoje está presente em milhões de lares. Na Toyota, Toyoda respondeu às barreiras comerciais com uma estratégia de produção local que redefiniu a presença da empresa no mercado americano.

Ambos exemplificam como a adversidade pode ser um catalisador de sucesso, uma lição que ressoa em outras trajetórias notáveis. Steve Jobs, por exemplo, fundou a Apple em 1976 em uma garagem na Califórnia, com recursos limitados e diante de gigantes como a IBM. Sua visão de tecnologia acessível e esteticamente revolucionária deu origem ao Macintosh em 1984 e ao iPhone em 2007, produtos que mudaram a forma como o mundo interage com a tecnologia. Da mesma forma, Anita Roddick abriu a primeira loja da The Body Shop em Brighton, Inglaterra, no mesmo ano de 1976, em meio a uma recessão econômica. Apostando em cosméticos com compromisso social e ambiental — reutilizando frascos e promovendo o comércio justo —, ela construiu uma marca que desafiou as normas da indústria da beleza e inspirou um movimento global.

Esses pioneiros não apenas superaram obstáculos; eles reescreveram as regras de seus setores. A coincidência de Rivella morrer dez anos após Michele Ferrero, com quem compartilhou a missão de transformar a Ferrero em uma potência, reflete a continuidade de um legado forjado na colaboração e na criatividade. Já o falecimento do “Dr. Toyoda” (como era conhecido por ser doutor em engenharia pela Universidade de Nagoya), dois anos antes, nos lembra como líderes de diferentes culturas e indústrias podem convergir em um mesmo espírito de resiliência.

Rivella, que viveu seus últimos anos em Alba como viúvo e pai de quatro filhos, viu a Nutella evoluir de uma solução prática a um símbolo cultural. Toyoda, por sua vez, testemunhou a Toyota ultrapassar a General Motors em 2008, um sonho que ele plantou décadas antes. Jobs revolucionou a tecnologia pessoal, enquanto Roddick, antes de falecer em 2007, viu a The Body Shop vendida por milhões, consolidando sua visão de negócios com propósito.

O verdadeiro alcance desses visionários está nos valores que deixaram às gerações seguintes. O "kaizen" (melhoria contínua) nutrido por Toyoda foi refinado ao longo de sua carreira e continua a guiar a Toyota sob Koji Sato, presidente desde abril de 2023, após a gestão de Akio Toyoda entre 2009 e 2023. Rivella ajudou a construir uma cultura de inovação prática na Ferrero, hoje sustentada por Giovanni Ferrero, que mantém a empresa entre as líderes mundiais do setor alimentício. Jobs legou à Apple uma obsessão por design e ousadia, perpetuada por Tim Cook, enquanto Roddick plantou as sementes de um movimento de responsabilidade ambiental que ecoa em marcas contemporâneas. Suas empresas não são apenas negócios lucrativos; são testemunhos vivos de como a pressão pode moldar ideias duradouras.

Passadas pouco mais de duas semanas desde a morte de Rivella, seu impacto permanece evidente. O funeral na Catedral de San Lorenzo, em Alba, reuniu familiares, amigos e admiradores de uma vida dedicada à inovação. Assim como Toyoda, Jobs e Roddick, ele enfrentou contextos de escassez – seja de recursos materiais, econômicos ou de mercado – e respondeu com soluções que transcenderam suas épocas.

Para líderes atuais, suas histórias oferecem lições práticas: em um mundo de desafios como a digitalização acelerada e a busca por sustentabilidade, a capacidade de transformar crises em oportunidades é mais relevante do que nunca. A Ferrero de Rivella nos ensina a valorizar o local para conquistar o global; a Toyota de Toyoda mostra o poder da adaptação estratégica; a Apple de Jobs prova que a simplicidade pode ser revolucionária; e a The Body Shop de Roddick demonstra que propósito e lucro podem caminhar juntos.

As coincidências nas datas de falecimento — Rivella dez anos após Michele Ferrero e dois anos após Toyoda — vão além de uma mera curiosidade do calendário. Elas entrelaçam sutilmente histórias de excelência forjadas na necessidade e impulsionadas pela visão. Esses pioneiros não se limitaram a criar produtos ou empresas; eles transformaram desafios em legados duradouros. Suas trajetórias mostram que a adversidade, quando enfrentada com criatividade e determinação, pode não representar um ponto final, mas o início de algo grandioso.

Publicado em 05/03/2025

Autor

Flávio Battaglia
Presidente do Lean Institute Brasil