Uma contramedida à educação das escolas de administração


Estratégia e Gestão
Jim Womack - 15/05/2017

YOKOTEN DE WOMACK - De forma surpreendente, as escolas de administração ensinam muito pouco sobre administração, e, quando o fazem, todo o aprendizado é baseado na sala de aula. Em vez disso, elas deveriam ir ao gemba.



As temperaturas globais parecem estar aumentando, mas ainda faz frio em Boston no inverno, e estou ficando velho. Então, há alguns anos, pensei um pouco sobre o problema do frio e de estar velho e decidi fazer algo ousado: Tornei-me um professor temporário durante o inverno de Boston em escolas de administração em lugares quentes com economias emergentes. Foi divertido, e aprendi muito (e espero que os alunos também tenham aprendido). Indo ao gemba da grande indústria que é o MBA, que começou nos Estados Unidos na década de 1880 e ainda se espalha por todo o mundo, tive a chance de entender a situação, aprofundar meus conhecimentos sobre os problemas e até mesmo experimentar algumas contramedidas.

Talvez a descoberta mais surpreendente, que é o que costuma acontecer quando encontramos o gemba pela primeira vez, é que as escolas de administração na verdade não ensinam administração. Em vez disso, elas ensinam habilidades funcionais, com base principalmente em ferramentas: estratégia, análise financeira, contabilidade, marketing, compras etc.

Mesmo em cursos de gestão de operações, a pequeno parte do mundo das escolas de administração de que posso participar, o que eles realmente ensinam são operações matemáticas: teoria das filas, análise de ordem econômica, análise de gargalo, redução de variação (usando ferramentas do kit de W. Edwards Deming para seis sigma). E note que “operações” são restritas a atividades transacionais - produção na fábrica, ajuste de sinistros em uma companhia de seguros, fluxo de pacientes através de uma sala de emergência em um hospital. No mundo real, cada atividade criadora de valor em qualquer organização é uma “operação”, e cada uma precisa ser gerenciada para a estabilidade e a melhoria.

A administração geral é às vezes discutida por cima em cursos de política empresarial, onde os alunos podem aprender sobre o organograma enquanto canal de autoridade e sobre as ferramentas da gestão moderna: definição de objetivos através de indicadores-chave de desempenho (KPIs) como parte de um plano e orçamento anual de cima para baixo, realização de relatórios diretos para suas promessas KPI, distribuição de recompensas para o bom desempenho e punições para maus e delegação de problemas e atividades de melhoria para especialistas. Mas esses pontos são abordados rapidamente em algumas palestras sem oportunidades para que os alunos realmente pratiquem a gestão. A suposição no mundo das escolas de administração parece ser que os estudantes graduandos encontrarão empregos em organizações com “sistemas de gestão pré-existentes complexos” e que os alunos precisam se adaptar rapidamente às práticas em seus novos ambientes. Treiná-los de uma maneira diferente e rigorosa para gerenciar pode até ser um desserviço que ameaça sua progressão na carreira!

O pouco que as escolas de administração ensinam sobre administração é ensinado nas salas de aula: teoria por PowerPoint e prática por meio de análise de caso, a inovação da Harvard Business School na virada do século XX. Sua noção de ir ao gemba é a rápida viagem de “estudo” para ver as ferramentas em ação, seguida de uma discussão de volta na sala de aula.

A dinâmica do ensino por cases é particularmente interessante. O aluno tem todas as informações disponíveis escritas no case - nenhuma investigação mais profunda no gemba é possível para verificar se os dados são o que Taiichi Ohno queria: fatos. Precisos, oportunos e relevantes (para mim, chegar aos fatos a fim de esclarecer o problema é a parte mais difícil e mais gratificante da gestão - o lado esquerdo do A3).

Assim, o objetivo para o aluno é definir rapidamente o problema e encontrar rapidamente a solução, usando os dados e as ferramentas ensinadas no curso, e olhar tão confiante quanto possível no desenvolvimento de uma apresentação em PowerPoint para compartilhar as conclusões. É surpreendente o mundo estar repleto de gerentes treinados pela escola de administração - aqueles que dão dores de cabeça aos praticantes lean todos os dias -, que trabalham em salas de conferência longe do gemba para definir rapidamente o problema e prescrever a solução mostrando absurda autoconfiança? (Veja o recente artigo do professor Henry Mintzberg sobre como isso tem funcionado na prática quando os estudantes da escola de administração se tornam CEOs e têm um desempenho pior do que CEOs que nunca passaram perto de uma escola de administração - MBAs as CEOs: Some troubling evidence - em inglês).

Vamos imaginar uma experiência: Suponhamos que as escolas de administração realmente não pensem que suas práticas sejam eficazes ou a melhor maneira de criar bons gerentes. O que elas podem fazer então?

Deve-se começar perguntando o que é “administração” na verdade. Em nosso mundo lean, acreditamos que seja (1) conseguir um consenso sobre o que é importante a organização alcançar (através de planejamento hoshin envolvendo todos os funcionários em todos os níveis), (2) tomar iniciativas para combater problemas importantes ou implantar iniciativas importantes A3 pelos gerentes de linha) e (3) criar e sustentar estabilidade básica em cada “operação” (através do gerenciamento diário). E, mais importante, precisamos concordar que administração não é uma teoria, mas uma prática social que só pode ser dominada por ciclos repetitivos de gerenciamento diário, análise A3 e planejamento hoshin com a ajuda de um professor (ou coach ou sensei, se você preferir) que se envolve com criadores de valor da linha de frente e gerentes de nível inferior.

Isso sugere que o coração de qualquer ensino de administração deve estar no gemba, envolvendo diretamente as pessoas que fazem o trabalho real de criação de valor. Assim, em vez de analisar problemas e saltar rapidamente para soluções sem conhecimento do gemba, as escolas de administração precisam encontrar o gemba em uma base contínua para cada aluno e levar todos os alunos através de ciclos prolongados de hoshin, A3 e gestão diária. Os alunos sairiam ganhando, as organizações que os receberiam também, e - acredito - ensinar se tornaria uma ocupação mais satisfatória.

Fazer isso exigiria que as escolas de administração desenvolvessem relações de longo prazo com aquelas organizações que fornecem a experiência no gemba e se tornassem, efetivamente, seus centros de treinamento gerencial. Isso parece uma algo difícil de se alcançar, mas não acho que seja loucura. A gestão moderna - com suas ferramentas funcionais - foi espalhada pelo mundo pelas escolas de administração depois da Segunda Guerra Mundial e continua hoje em novas escolas de administração criadas nas economias emergentes onde ensino. O que é necessário agora é a coragem de tentar experimentos em um caminho diferente. Algum voluntário para fazer uma análise A3 para as escolas de administração?

Fonte: Planet Lean


Clique aqui para baixar este artigo em PDF.


Faça seu comentário abaixo.
Eventos
    18 OUT
Lean Summit Saúde 2017                     
Cenesp
São Paulo - SP
Artigos
 
– Gary Convis, Presiden...
Publicações
 
– Pascal Dennis